Um salve a Espinosa!

Professores REDEi2018 RedeUNOi 5 de abril de 2018

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Em seus estudos sobre ética, Espinosa se pôs a pensar sobre a importância dos afetos e dos encontros que temos no decorrer de nossa existência. Sempre digo aos meus alunos que esse conteúdo de Filosofia nos brinda com uma rica contribuição para a reflexão e a construção de nossos caráteres.

Espinosa afirma que, no decorrer da vida, temos bons e maus encontros. Os bons encontros resultam em paixões alegres, enquanto os maus resultam em paixões tristes. Tais encontros não se referem apenas ao par romântico, mas a toda espécie de contato gerador de afetos, tais como: encontros com o espaço, com a família, com amigos, com a profissão, com uma determinada situação ou com a natureza, entre outros.

Bons encontros são aqueles que nos dão potência de vida, que promovem o que de melhor temos e sentimos, nos permitindo viver uma paixão alegre. Maus encontros, ao contrário, são aqueles que nos roubam vitalidade e encantamento, reduzindo, assim, nossas potencialidades e nos conduzindo a paixões tristes.

Durante o Estação REDEi 2018, por várias vezes me lembrei dos bons encontros de Espinosa, pois, desde a chegada e durante todo o tempo, cada olhar, cada palavra, cada afeto, cada vivência, cada partilha imediatamente se traduzia em uma paixão alegre.

Dentre tantos bons encontros, alguns me tocaram de forma especial. São eles:

O encontro com o espaço e a natureza

O lugar de hospedagem nos brindava com a mão de Deus em sintonia com a mão do homem. Os encantos do mar e o aconchego da praia se misturavam com a beleza da arquitetura, nos possibilitando afetos singulares. Dez salas de vivências, pedagogicamente preparadas para compor com as reflexões das dinâmicas propostas, nos brindavam com cenários criativos e com um colorido que trazia alegria aos olhos e encanto ao olhar. Um bom encontro, uma paixão alegre. Um salve a Espinosa!

O encontro com as pessoas

Encontrar-se com colegas da Educação de toda a parte de nosso país, repletos de idealismo, de vontade de (re)pensar suas práticas, de desafiar-se, de partilhar foi marcadamente um bom encontro. O peito aberto, o corpo livre e em prontidão para a próxima vivência e o brilho intenso do olhar permeavam fala e escuta. Havia a moçada de branco e a moçada de preto, mediadores e organizadores do evento. Equipe ímpar que, por meio de atenta disposição e afeto, demonstrava um desejo único de fazer o melhor. E fizeram.

Foram encontros de muita troca, na construção de uma jangada na praia, no improviso do palco para completar uma história, no desvendar a cena de um crime, no calçar o sapato do outro, no deixar-se levar em dança, no trato com fake news e tantas outras vivências que nos fizeram descobrir quem somos, e ser! Definitivamente uma paixão alegre. Mais um salve a Espinosa.

O encontro com a Educação

Infelizmente, a atual desvalorização da Educação por parte de algumas instituições de nosso país tem levado a nossa profissão a diversos maus encontros, a paixões tristes que roubam de alunos e professores a potência de ensinar e aprender, de descobrir o mundo e a si mesmo. Em um contexto como esse, bons encontros que geram paixões alegres no universo da Educação adquirem brilho, importância e, sobretudo, função social ainda maior.

Sentir-se valorizado pela qualidade das falas e das vivências propostas; pela grandeza dos desafios apresentados; pela oportunidade de partilhar idéias e ideais com colegas sonhadores e realizadores; pela organização e cuidado com que foi preparada a jornada; pela notória seriedade, honestidade e preocupação com a construção de uma ética de si e do outro na instituição Escola, fez desse encontro um bom encontro, uma paixão alegre, capaz de vivificar as potencialidades do fazer-se professor de cada um de nós.

No elevador do hotel, comentando com uma colega que acabara de conhecer sobre tão bom encontro, ouvi dela: nós merecemos! Sim, nós merecemos. E fomos tratados como merecedores. Em todo tempo da jornada, em cada vivência proposta, em cada gesto, em cada detalhe.

Por fim, peço licença ao filósofo Espinosa para finalizar com o grande sociólogo Zygmunt Bauman, fazendo uso da metáfora da liquidez, por ele criada para referir-se a condição humana na sociedade atual.

Em tempos de amor líquido, o grande desafio, também na perspectiva da Educação, é estabelecer vínculos, pontes e laços humanos sólidos, compromissos que permaneçam, projetos que vão além do aqui e agora e gerem utopias que nos movam em favor da construção de um mundo melhor para ser e viver. Amores sólidos implicam em uma jornada de bons encontros e paixões alegres, tal como a que acabamos de vivenciar. Obrigada ao UNOi e a Escola Viverde por esse tão bom encontro.

E que a Jornada continue!

Flavia Ottati Valle

Flavia Ottati Valle

Doutora em Ciências Sociais e Professora da Escola Viverde de Educação Básica.

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